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 Vinte anos sem Mikhail Tal

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Rio Grande do Sul

MensagemAssunto: Vinte anos sem Mikhail Tal   Dom 27 Jan 2013, 17:16

Letônia... um pequeno país da Europa setentrional, banhado pelas águas
geladas do Mar Báltico. Sua capital, Riga, que já havia dado ao mundo o
talentoso e revolucionário Nimzovitsch, foi o berço de um dos mais
brilhantes enxadristas de todos os tempos: Mikhail Nekhemievich Tal. Ele
é reverenciado até hoje por ter sido um exímio jogador tático, um
perito na arte das combinações, sem dúvida sua marca registrada.






Vista da cidade de Riga, capital da Letônia

Tal nasceu em 09 de novembro de 1936, no seio de uma família de origem
judia; aliás, muitos dos melhores jogadores de xadrez da história eram
judeus ou descendentes de judeus: Steinitz, Tarrasch, Rubinstein, o já
citado Nimzovitsch, Lasker, Botvinnik, Bronstein, Reshevsky, Fischer,
Gelfand, Kasparov (o maior de todos) e vários outros mais.


Desde muito cedo, o pequeno Misha deslumbrava a todos com sua
inteligência e memória prodigiosas. Aos três anos de idade ele já lia
com perfeição, e aos cinco multiplicava de cabeça números com três
dígitos. Conta-se que, quando ele tinha sete anos, após assistir uma
palestra dada pelo pai na faculdade de medicina onde este lecionava, o
garotinho foi capaz de reproduzi-la inteira, palavra por palavra, ao
chegar em casa.

Com um cérebro assim privilegiado, o adolescente Tal passou rapidamente
pelo ensino médio e com apenas 15 anos já estava frequentando os bancos
escolares da Faculdade de História e Filologia da Letônia, na qual
ingressou para estudar língua e literatura russa.


Tendo começado a jogar xadrez na infância, com sete anos, Mikhail Tal
fez rápidos progressos; aos 14 anos estreou no campeonato da Letônia,
aos 17 obteve o título de mestre e aos 20, ao mesmo tempo em que venceu
pela primeira vez o campeonato da URSS (iria conquistá-lo mais cinco
vezes), tornou-se grande mestre, um dos mais fortes daquele país.






O jovem Mikhail Tal


Comparado a Morphy pelo brilhantismo do seu jogo e pela ascensão
fulgurante, a trajetória de Tal rumo ao topo do xadrez teve o furor de
um meteoro que ofuscou a todos os adversários em sua passagem. Em 1958,
ele venceu o Interzonal de Portoroz, e no ano seguinte venceu também o
Torneio de Candidatos jogado na Iugoslávia, obtendo assim o direito de
disputar o título mundial contra o então campeão, Mikhail Botvinnik.


De forma surpreendente, o match disputado em Moscou, em 1960,
terminou com a sensacional vitória do desafiante, por 12,5 x 8,5
(+6,=13,-2), o qual sagrou-se, merecidamente, o oitavo campeão mundial
de xadrez, com apenas 23 anos de idade, um recorde que só seria
derrubado um quarto de século mais tarde, quando Kasparov arrebatou de
Karpov a coroa, com um ano a menos que Tal.


Na ocasião da disputa entre Tal e Botvinnik, o patriarca da escola
enxadrística soviética não pôde fazer frente ao jogo impetuoso, ousado e
“irracional” do seu oponente, e além da dolorosa capitulação, o soberbo
mestre do xadrez posicional assistiu os sólidos princípios estratégicos
sobre os quais ele assentara seu jogo ruírem perante a força do
“furacão” Tal.


De fato, o estilo de jogo do grande mestre letão era único e
inconfundível: quer manejasse as brancas, quer as pretas, Tal jogava
agressivamente, visando obter posições dinâmicas nas quais sua magnífica
visão combinatória pudesse desequilibrar a partida a seu favor. À
maneira do lendário Alekhine, Tal costumava lutar pela iniciativa desde o
começo, muitas vezes descuidando-se da defesa e incorrendo em sérios
riscos; dessa forma, ele era capaz de criar posições tão complicadas e
cheias de tensão, que boa parte de seus adversários, desnorteados e
amedrontados com o ímpeto dos ataques, não conseguiam defender-se
corretamente e eram vencidos.


A sua habilidade em realizar imprevisíveis sacrifícios era
verdadeiramente fenomenal. Dotado de uma extraordinária capacidade de
cálculo e de uma imaginação criadora ímpar, a Tal não importava o
equilíbrio material ou posicional, e sim a possibilidade de efetuar
golpes táticos desconcertantes, cuja profundidade não era compreendida
pelo raciocínio lógico e cartesiano dos seus antagonistas. As belas
combinações e ataques por ele idealizados pareciam obras de magia, os
quais, além de lhe valerem o epíteto de “O Mago de Riga”, provocaram o
deleite dos seus inúmeros fãs espalhados ao redor do mundo.


É sabido que parte das combinações executadas pelo “mago” era produto
não de um cálculo concreto, e sim de pura intuição. Por isto mesmo,
muitas dessas combinações não eram de todo corretas, mas geralmente só
se descobria isso nas análises post-mortem: durante o calor da partida era difícil para os oponentes encontrarem uma refutação.


Uma vez de posse do título mundial, Tal deu mostras de sua simplicidade
e caráter amistoso. Ao contrário do campeão anterior, o sisudo
Botvinnik, que parecia querer proteger seu título dentro de uma redoma
de cristal, o novo campeão era visto jogando xadrez relâmpago com
pessoas comuns, pelo simples prazer de jogar.

Seu reinado foi o mais curto da história do enxadrismo mundial, durando
precisamente um ano e cinco dias. Em 1961, Botvinnik, num match-revanche,
recuperou o título de campeão, por um placar de 13 x 8 (+10,=6,-5).
Muito se comentou a respeito das precárias condições de saúde de Tal
durante a disputa desse segundo confronto. Informações dão conta de que
poucos dias antes do início do match ele saíra do hospital, onde havia
sido submetido a uma cirurgia, e por isto mesmo, não teve como
preparar-se adequadamente para defender seu título.


Devo salientar que a saúde de Tal sempre foi um empecilho para que este
atingisse sua melhor forma enxadrística. Por muitos anos ele foi
atormentado por uma enfermidade renal, agravada pelo abuso de álcool e,
principalmente, de fumo. Ao longo de sua vida, Tal passou por 12
cirurgias, tendo que inclusive retirar-se do Interzonal de Curaçao, em
1962, a fim de ser levado às pressas para a mesa de cirurgia. Em virtude
do distúrbio nos rins e da sua negligência com a própria saúde, o auge
da carreira de Tal durou apenas três anos, de 1958 a 1961. Isto é algo
realmente lamentável, pois com a genialidade que lhe era inata, se ele
dispusesse de uma maior capacidade de trabalho e de uma saúde robusta,
aonde poderia ter chegado?


Não obstante tais dificuldades, Mikhail Tal seguiu jogando até o final
de sua vida, ganhando diversos torneios e mantendo-se invicto em longas
séries de partidas oficiais. O modo de jogar agudo e agressivo da
juventude, com o passar do tempo deu lugar a um estilo mais equilibrado,
posicional e técnico, correspondente à sua fase madura, mas sem perder a
ousadia, a criatividade e a habilidade tática.






Mikhail Tal na idade madura



Apesar de ser um jogador implacável diante do tabuleiro, longe dele
Mikhail Tal era uma pessoa amável e simpática. Inteligente e possuidor
de um refinado senso de humor, sempre rindo e proferindo gracejos, Misha parecia
ser dotado de uma aura de magnetismo pessoal que cativava todos a seu
redor. Era querido por seus colegas enxadristas e demais pessoas que o
conheciam, apegado à família e aos amigos, e desapegado ao dinheiro e
aos bens materiais. Sua grandeza de espírito parecia fazê-lo incapaz de
sentir inveja ou de nutrir qualquer outro sentimento mesquinho, mesmo
num universo tão competitivo quanto o da elite do xadrez!


Infelizmente, esse gênio do tabuleiro nos deixou muito cedo: no dia 28
de junho de 1992 ele faleceu num hospital de Moscou, aos 55 anos de
idade. Tal, que é o meu ídolo no xadrez, tanto pelas qualidades de seu
jogo quanto pelas suas qualidades humanas, conseguiu, com a beleza de
seus sacrifícios, a intrepidez de seus ataques e a complicação das
posições que criava, abalar os pilares do jogo posicional e exercer
notável influência no desenvolvimento do pensamento enxadrístico na
segunda metade do século XX. Como seu fã, eu não poderia deixar de
prestar-lhe uma homenagem pela passagem do vigésimo aniversário de sua
morte, rendendo o justo tributo à sua memória.


No entanto, por mais que eu teça elogios à sua pessoa, estes jamais
serão tão autênticos quanto os comentários sobre Tal feitos pelos
companheiros que com ele conviveram; assim sendo, para finalizar estas
linhas, reproduzirei abaixo alguns testemunhos de insignes enxadristas
em relação ao inesquecível “Mago de Riga”:



Só há um Mikhail Tal no mundo (GM Samuel Reshevsky);



Tal é um incrível fenômeno no xadrez. Podem acreditar em mim, porque em meu tempo vi muitos talentos (GM Max Euwe);



[Tal] era um autêntico virtuoso: obtinha prazer confiando em sua
fenomenal visão combinatória, e em cada partida encontrava soluções
paradoxais
(GM Mikhail Botvinnik);



[...] seu estilo de jogo era inimitável, posto que é impossível
copiar a forma de jogar de um gênio. Tal é o único jogador que eu me
lembre que não calculava longas variantes, ele simplesmente as via!
Centenas de fantásticas combinações desfilavam continuamente em seu
cérebro, e sua imaginação não conhecia limi
tes (GM Garry Kasparov).

fonte Luiz Fábio Alves Jales - lfajales@ig.com.br
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MensagemAssunto: Re: Vinte anos sem Mikhail Tal   Dom 27 Jan 2013, 20:45

Tal accepted absolutely all the world champion's conditions with a smile, taking away a very important psychological trump card from him - the harsh, prickly relations with his opponent that were characteristic of all Botvinnik's matches. - Genna Sosonko

Tal didn't try to take refuge in the past and, caring little about the future, tried to extract as much pleasure as possible from the present. He simply lived, not thinking about what people would say, think or write about him. - Gennadi Sosonko

The ex-world champion has often commented that he regularly watches the chess lessons on TV meant for lower rated players. His idea is that the repetition of the elements can never do any harm, but rather polishes up the grandmaster's thoughts. - Alexander Kotov

It only became clear that after a careful analysis that his opponent's mistakes were caused by the extreme variety and difficulty of the problems that Tal set them. - Mark Dvoretsky

I personally never stood out amongst my contemporaries, because I always had to progress by hard work. Tal, on the other hand, there is an example of someone who did not have to work at it. - Mikhail Botvinnik

We are all, in a sense, Tal's children; I grew up on his games and in my childhood I played in such a style. - Vladimir Kramnik

Tal's combinations often exert a sort of paralysing influence on the opponent's play. It would seem that the element of surprise plays a big part in this. - Mark Taimanov

Tal doesn't move the pieces by hand, he uses a magic wand. - Viacheslav Ragozin

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MensagemAssunto: Re: Vinte anos sem Mikhail Tal   Dom 27 Jan 2013, 21:59


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MensagemAssunto: Re: Vinte anos sem Mikhail Tal   Dom 27 Jan 2013, 22:29


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